Aos 72 anos, Valmir Leal Oliveira é um senhor de bem com a vida. Casado há 44 anos, pai de 4 filhos, aposentado. Trabalhou com posto de lavagem de veículos e carpintaria por quase 40 anos em Camacã. É conhecido como Pufo Pufo, apelido que vem dos tempos de futebol. “Estava jogando e um  falou: esse cara a bola não para no pé, a bola vem e ele pufo, vem e pufo de novo. Era adolescente e ainda morava em Ilhéus. Aí o Pufo Pufo pegou ”, conta.

Pufo Pufo sempre gostou de externar seus pensamentos. Próximo ao seu lavador, na entrada da cidade, há muito tempo escreve nas muretas, conselhos, frases de autoajuda e cobranças públicas. Geralmente alertam para doenças como câncer da próstata e diabetes. Algumas são direcionadas aos políticos locais. Anos atrás, fez um pequeno galpão com uma cobertura que serve como ponto de ônibus e é muito utilizado, próximo ao INSS, que ele chama de “Cobertura da Comunidade”. Ano que vem tem eleição municipal e Pufo já prepara uma nova frase de ‘alerta’.

“Fiz sem nenhum interesse, porque via o sofrimento do povo que ficava ali esperando transporte. Me perseguiram e quiseram me tirar de lá. Já em 2016, fiz um acordo com a Prefeitura que me autorizou o uso do local, só não posso alugar para outros ou construir qualquer coisa. Vim para  cá há mais de 40 anos, mas sou um Camacaense. Só compro qualquer coisa fora, se não tiver aqui. E quero ser enterrado aqui”, revela.

FILHA NA ITÁLIA É DESTAQUE EM REVISTA

No início da década, uma das filhas de Pufo, conheceu um italiano enquanto trabalhava em Porto Seguro e se casou. Foi morar na Itália e constituiu família. Vane, também conhecida em Camacã, como “Nega”, mora atualmente na região da Lombardia e recentemente foi destaque em uma revista local.

O tema da reportagem  foi o “Ano vicário de conscientização sobre a questão dos migrantes: As faces do nosso país”, matéria publicada na revista Incontro de Bonatte Sotto, que é uma comunidade da província de Bergamo, abordando a vida dos imigrantes da região. Nela, “Nega” aborda a sua acolhida na Itália, a saudade dos familiares e a vontade de cuidar de idosos.

A publicação chegou às mãos de Pufo Pufo e causou orgulho ao velho pai. “Gostaria de indicar para as pessoas que elas tem que buscar o melhor para si. Minha filha saiu daqui, foi trabalhar fora e sua história virou destaque em uma revista de um grande país. Ela dançou no Lordão e trabalhou em barraca de coquetel. Foi aventurar em Porto Seguro, conheceu esse Italiano e estão casados há uns 6 anos. A gente se fala todo mês, ela manda fotos. Encontrou um futuro melhor”, agradece.

CONSELHOS

Assim como sua filha batalhou muito até encontrar uma vida mais digna em outro país, Pufo se preocupa com o futuro das crianças Camacaenses. Nesse bate papo com o Folha do Cacau, olha para a rua, vê crianças voltando da escola num final de tarde e se preocupa: “Honra teu pai e tua mãe para ter vida longa. Tem 45 anos que vim de Ilhéus para aqui. Saí de casa com 9 anos, sem leitura e sofri muito. Se pudesse dar um conselho a esses jovens, é que estudem muito porque a cada 4 irmãos só um fica aqui, os outros vão embora pois não tem mercado de trabalho e para conseguirem vencer na vida, a base é uma boa educação, com muito estudo”, aconselha.

Vane, “Nega”, com o esposo e os três filhos, dois deles, nascidos na Itália – Cópia da Revista Econtro Di Bonate Sotto

 

 

LEIA ABAIXO, A TRADUÇÃO DA PUBLICAÇÃO SOBRE VANE, NA ITÁLIA:

Revista: ENCONTRO DI BONATE SOTTO

ANO VICÁRIO DE CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE A QUESTÃO DOS IMIGRANTES

                                                   AS FACES DO NOSSO PAÍS: VANESSA SOUZA

Nós vemos muitas pessoas de outros estados; muitas vezes sabemos pouco ou nada. Às vezes nos encontramos no mercado ou perto da escola enquanto esperam que os filhos saiam, mas dificilmente nos aproximamos deles. Talvez seja hora de superar os clichês e ouvir suas histórias.

Oi Vane, diga-me algo sobre você: quantos anos você tem, há quanto tempo você está na Itália, de onde você é, porque…

Tenho 37 anos, estou na Itália há cerca de três anos. Eu venho do Brasil, precisamente da Bahia. Eu vim para a Itália porque me casei com um italiano e queria encontrar meu sogro antes que ele morresse.

Desculpe, eu não entendi. Seu marido trabalhou no Brasil?

Não, não Ele foi para a Bahia de férias. Eu o conheci graças a um amigo em comum, também italiano, que eu conhecia há oito anos. Eu trabalhei em um pequeno restaurante e eles vieram para jantar; às vezes, no final do meu turno, saíamos juntos. Certa noite, saímos dois e descobrimos que estávamos apaixonados. Passamos uma quantidade infinita de tempo entre ligações, conversas, selfies, até nos casarmos. Ele havia se mudado para o Brasil, onde encontrara trabalho, mas poucos meses depois recebemos a triste notícia de que seu pai estava gravemente doente. Meu marido sofria por estar longe dele, mas ele não se atreveu a me deixar. Então tomei a iniciativa: também queria estar perto do meu sogro e conhecer a criança que eu esperava.

Foi uma triste razão para sua chegada na Itália.

Sim, mas a recepção foi fantástica! Eles imediatamente queriam um grande bem, todos eles: sogros, cunhado, parentes. Eu não esperava uma afeição tão calorosa, fiquei tocada. Quando meu filho Denis nasceu,  meu sogro foi o primeiro a levá-lo em seus braços. Ele era seu primeiro neto e ele estava orgulhoso disso. Algum tempo depois ele morreu. Estou feliz por ter vindo à Itália, por tê-lo conhecido e por ter aplaudido seus últimos dias. A criança tinha o poder de fazê-lo sorrir mesmo quando ele não estivesse bem.

Você não está dividida?

Não. Meu marido também me propusera porque eu tinha dois outros filhos, nascidos do meu primeiro casamento, e minha mãe a quem eu era muito apegada.               Mas eu estava feliz aqui e não tive coragem de levar Denis para longe da minha sogra: ela havia perdido o marido e eu não queria dar a ela a dor de perder o sobrinho. Então eu também queria outras crianças na Itália.

Qual é a idade dos seus filhos?

O mais velho, Ricardo, tem 16 anos estuda Mecânica no segundo ano do ensino médio. O segundo, Tommaso, tem nove anos e frequenta a escola primária. *o terceiro chama-se Denis.

E eles não sofreram para se libertarem de suas terras?

Não, não, eles estão bem aqui. Eles imediatamente aprenderam italiano e são muito bons na escola.

E você não se sente nostálgica?

Claro, sinto falta da família, da comida, das cores, dos cheiros, da alegria barulhenta, do mar… Mas aqui a minha vida é melhor.Antes de mais nada estou cercado pelo grande afeto de toda a família, meu marido; além disso, as condições de vida na Itália são definitivamente mais altas; escola, saúde, assistência, segurança …Eu prefiro que meus filhos cresçam na Itália.Este ano eu decidi vir para a escola de italiano também porque eu quero aprender bem a língua e procurar um emprego.

Que trabalho você gostaria de fazer?

Ajudar os idosos.

Parece pesado para você? Por que você não procura um emprego semelhante ao que você fez no Brasil?

No Brasil, eu trabalhei muito em turismo: eu ensinei danças latino-americanas, trabalhei em catering e muito mais, mas essas atividades levam tempo, especialmente à noite.Não quero negligenciar minha família. E então estar perto do meu sogro me dava um sentimento de ternura pelos idosos, fracos e doentes.Eu sinto que posso fazer algo de bom para eles.

Loredana Rampinelli

*Nota da redação.